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Anunciante do CNT

Embora Michel Foucault haja escrito que “a política é a guerra continuada por outros meios”, invertendo a afirmação do prussiano Carl Von Clausewitz de que “a guerra não é mais do que a continuação da política por outros meios”, deve-se ter em conta que o francês, pensando sobre a dinâmica das relações sociais de força, denuncia sistemas de disciplinas e ideologias de submissão, ou ensina que poder político é confronto, é guerra.

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Guerra no cotidiano não remete a Forças Armadas. E mesmo em batalha convencional os modos civis podem ser os adequados. Georges Clemenceau, premiê francês quando da Primeira Guerra, concluiu: “a guerra é importante demais para ser deixada na mão dos militares”. Sun Tzu, ensinando sobre guerra típica, diz “A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar”. A evitação do combate físico inventou a diplomacia.

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Agora, não se pense que relações políticas são desenvolvidas em ambiente pacificado, necessariamente. Winston Churchill, no encargo de comandar seu povo em batalha contra o nazismo, não obstante soubesse que “a política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa”, ao tomar posse como primeiro-ministro da Inglaterra, não titubeou em avisar: “Nada tenho a oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor”.

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Já, cá, Jair Bolsonaro, o nosso presidente, em sua guerra de palavras – não posso dizer guerra de ideias – oferece cloroquina, misoginia, religião. E dá combate à vacina, ao distanciamento social, aos protocolos sanitários. Segundo sua compreensão de mundo, os organismos políticos internacionais, ONU inclusive, ou principalmente, são aparelhos de propagação comunista. Na tragédia da peste atual, uma comédia medieval.

Seus ídolos – não posso citar referência preceptoral – são um senhor verborreico que vive nos EUA e o presidente do mesmo país. Preocupa-me Donald Trump porque Bolsonaro o macaqueia – não posso referir inspiração. Trump usa um vocabulário “de uma brutalidade fora do comum. E não se trata de uma representação semântica de uma intenção belicosa. É a sua linguagem cotidiana mais banal, empregada todos os dias.

Ele repete as mesmas palavras vazias para designar realidades cheias de nuances. Fala por bordões. O único elemento recorrente que o auditório de Trump encontrará, seja qual for o assunto abordado, seja qual for o contexto e o pretexto da intervenção, será ele mesmo. Ele é o seu próprio referente. A única realidade é aquela que sai da sua boca e quem quer que diga o contrário está mentindo, especialmente a mídia.

Trump e os funcionários de seu governo vivem em um mundo no qual é suficiente nomear a realidade para que ela tome forma. Informações factuais são tratadas como ameaça. O matraquear incessante da ‘realidade alternativa’ de Trump faz com que as notícias falsas viralizem numa espiral orwelliana”. (Trump, o perigoso dialeto privado presidencial, Elias Thomé Saliba citando Bérengère Viennot, Estadão, 09jan21, editado).

Nesse tipo de pensamento mágico que reformula a realidade, para Trump “parece que a pandemia já está no final”. Bolsonaro afirma que “a pandemia está no finalzinho”. Contudo, “mais de 600 mil pessoas foram internadas (31 mil permanecem) em decorrência de casos confirmados ou suspeitos de Covid-19 e cerca de 250 mil pessoas morreram, segundo levantamento da Fiocruz” Matheus Magenta, BBC-G1, 11dez20, editado).

Sun Tzu, A Arte da Guerra, um bom livro sobre o tema: “Um líder jamais deve iniciar uma guerra motivado pela ira”. Não se aplica a Trump ou a Bolsonaro. Marcados por fanatismo e polarização política expressos nas várias mídias e com mais abrangência nas redes sociais, nos EUA e no Brasil, estamos em guerra. Além dos robôs espalhando notícias falsas, muita gente de verdade reproduz violência e falsificação da realidade.

“Nomear e cultivar inimigos é a estratégia clássica do populista. ‘Procure o Inimigo!’ bordão de Jânio Quadros. Nisso cabe quase tudo: os ‘globalistas’, sem levar em conta que a circulação de bens, pessoas e conhecimento é crescente e irreversível; os ‘comunistas’, embora eles sejam irrelevantes no Ocidente desde o fim da URSS, há 30 anos; ou os ‘políticos’, apesar do fato incômodo de que os populistas são políticos.

Qual cavaleiros medievais, Trump e Bolsonaro costumam girar suas maças contra esses três moinhos de vento. Ao longo da semana os dois estiveram nas manchetes. Bolsonaro, ‘sou ligado ao Trump, né?’, afirmou, como o faz o norte-americano, desconfiar de fraudes eleitorais, tanto na eleição americana quanto na brasileira. Os dois têm um quarto moinho de vento em comum: as urnas, sejam elas eletrônicas ou de papelão.

Pilares republicanos repudiaram Trump. A revoada ocorre quando eles atentam para uma verdade incontornável. Populistas nomeiam e combatem moinhos de vento. Quando seus seguidores atacam símbolos da República como o Capitólio, fica claro, no entanto, que pelo menos um de seus inimigos nada tem de imaginário: a democracia” (Os populistas e seus moinhos de vento, João Gabriel de Lima, Estadão, 09jan21, editado).

Lá foi assim. Aqui, como será em 2022? Sectários de Trump afastaram os políticos ao atacarem o United States Capitol, abrigo do Senado e da Câmara dos Representantes dos EUA. Bolsonaro e seus sequazes fazem guerra suja no cotidiano: agridem o STF e o Congresso, gritam saudosismos da Ditadura. Nossos populistas… Não sei… É que “68%, 2 em 3 brasileiros, creem que 2021 será melhor” (Emílio Sant’Anna, FSP, 01jan21).

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