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Qualquer criança bem-educada sabe que aves evoluíram de dinossauros. Aliás, se alguém se der ao gosto de comparar os respectivos esqueletos perceberá que um é a miniatura do outro. Ademais, na Internet há farto material sobre o tema. Um adulto religioso, porém, não acredita nisso. Não acredita em dinossauro por dois motivos: porque não crê em evolução e porque aqueles bichos enormes não caberiam na arca de Noé.

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A arca media 300 côvados de comprimento, 50 de largura e 30 de altura (Bíblia, Gênesis, 6:14-16). Um côvado corresponde à medida do cotovelo à ponta dos dedos de um homem. Religiosos estão de acordo que o côvado a ser usado na medida da arca é de 45 cm, o que a deixa com 135 metros de comprimento, 22,5 de largura e 13 de altura. Quem desejar aprofundar-se no assunto deve saber que um holandês construiu uma réplica.

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O projeto, que almejava resgatar a fé, deu argumento para a descrença. Como colocar toda a bicharada (8,7 milhões de espécies) e mais os dinossauros dentro disso? Impossível. Para o crente, em não cabendo, não existem. E está resolvida “cientificamente” a questão. Mas com ou sem crença, evolução e dinossauros estão aí, gritando nas descobertas arqueológicas, expostos nos museus, descritos em livros de ciência.

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Apesar disso, mesmo alguns ateus se equivocam sobre o que seja evolução. Veem-na como um processo ativo de aperfeiçoamento, quando é, muito mais, um processo ´passivo de sobrar vivo na adversidade do mundo. As espécies se modificam por mutação seleção natural. Nem uma nem outra coisa decorre de algo superior, mas de acaso. Os humanos, entretanto, se atribuem superioridade, não um simples estado.

Ora, a qualidade humana, para a qual o humano não contribuiu, é, segundo o que mais ou menos sabemos e mesmo assim com muita discussão e sem nenhuma conclusão definitiva, o cruzamento bem-sucedido de três bichos compatíveis para o cruzamento: temos genes do Denisova, do Sapiens e do Neanderthal. O estado evolutivo da humanidade: somos um híbrido que deu certo, mas isso não nos faz menos primata.

E esse macaco tem sido lamentável. Ernest Cline, em Dancem, macacos, dancem (editado), mordazmente põe o mono divinizado no seu lugar: “Existem bilhões de galáxias no Universo avistável. Cada uma contém bilhões de estrelas. Numa dessas galáxias, orbitando uma estrela, encontra-se um pequeno planeta azul. Este planeta é habitado por um bando de macacos. Esses macacos não pensam em si mesmos como macacos.

Esses macacos nem sequer se pensam como animais. Adoram enumerar coisas que eles pensam que os separam dos animais. Mas eles são animais. Está bem, são macacos com polegares opostos, autoconsciência. Macacos com tecnologia, mas, ainda assim, macacos. São espertos, há que se lhes conceder isso: pirâmides, arranha-céus, jatos, a Grande Muralha da China. Para um bando de macacos, tudo isso é impressionante.

Quer dizer, eles são inteligentes. Temos de dizer isso. Macacos cujo cérebro evoluiu e se tornou incontrolável; agora é praticamente impossível ficarem felizes por muito tempo. Eles são os únicos animais que pensam que deveriam ser felizes; todos os outros animais simplesmente são felizes. Mas não é tão simples assim para esses macacos. Eles são amaldiçoados com consciência, então, têm medo, preocupam-se.

Preocupam-se com tudo, mas sobremaneira com o que os outros macacos pensam, porque cada macaco quer desesperadamente se enturmar com outros macacos. Isso é difícil, porque a maioria dos macacos odeia. Esse ódio é o que realmente os separa dos outros animais. Odeiam macacos que são diferentes, de lugares diferentes, de cores diferentes. Esses macacos se sentem sozinhos, todos os 8 bilhões deles.

Alguns macacos pagam um macaco para ouvir seus problemas. Buscam respostas. Eles sabem que vão morrer, então inventam deuses e os adoram. Discutem quem fez o deus melhor, e se irritam; então decidem que é uma boa hora de começar a matar uns aos outros. Fazem guerras, fazem bombas. Têm o planeta inteiro preparado para ser explodido. Eles já não sabem o que fazer, mas fazem troféus e os dão para si mesmos.

Existem alguns macacos bem confusos. Alguns acham que controlam tudo. Outros fazem planos. Outros se apaixonam, fazem sexo, fazem mais macacos. Macacos são barulhentos. Fazem música, dançam. Dancem, macacos dancem! Os macacos têm potencial. Se ao menos se dedicassem a bem usá-lo. Os macacos raspam o pelo do corpo em renegação da sua natureza. Os macacos traçaram linhas artificiais na Terra.

Macacos poluem e saqueiam o planeta como se não houvesse amanhã. Esgotam sua precária civilização, mas fingem estar tudo bem. Acreditam que o universo existe para seu benefício. Macacos são simultaneamente os animais mais belos e mais feios da natureza. Macacos não querem ser macacos, querem ser algo mais. Mas não são”. Em nome, pois, dos macacos, apelo aos macacos por sensatez. Sem macacos não há salvação.

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